A depressão é uma das condições psiquiátricas mais comuns e, ao mesmo tempo, uma das mais mal compreendidas. Em uma entrevista esclarecedora na Rede Vida, o Dr. Carlos Augusto Hueb, psiquiatra e diretor clínico da Clínica Libertà, abordou diversos aspectos da depressão, suas causas, os fatores que podem desencadeá-la e os cuidados necessários para o tratamento.
Causas da Depressão
A depressão, segundo o Dr. Carlos, é uma doença médica, assim como a hipertensão ou diabetes, e deve ser tratada com o mesmo respeito. Embora as causas da depressão não sejam completamente compreendidas, o psiquiatra aponta três fatores principais que contribuem para o desenvolvimento da doença:
- Fatores Genéticos: A predisposição genética desempenha um papel significativo. Se um membro da família tem histórico de depressão, os chances de um indivíduo desenvolver a doença aumentam consideravelmente.
- Fatores Neuroquímicos: Alterações nos neurotransmissores cerebrais, como a serotonina, estão associadas à depressão. Essas alterações podem impactar diretamente o humor, a ansiedade e o bem-estar geral da pessoa.
- Agentes Estressores da Vida: A vida cotidiana e suas adversidades, como traumas, perdas ou situações de alta pressão, podem desencadear a depressão. Por exemplo, uma pessoa que vivencia um conflito de guerra, como ocorre com crianças na Síria, tem uma probabilidade muito maior de desenvolver depressão comparada àquela que vive em um ambiente mais tranquilo.
Gatilhos da Depressão
Além das causas, o Dr. Carlos também falou sobre os gatilhos que podem precipitar um quadro depressivo. Cada indivíduo tem um “limiar de dor”, ou seja, um limite pessoal de resistência ao sofrimento. Para algumas pessoas, um evento como o término de um relacionamento pode ser devastador, enquanto outras podem passar por situações muito mais intensas e não apresentar os mesmos sinais de sofrimento. Entre os gatilhos mais comuns estão:
- Eventos Traumáticos: Perdas significativas, como a morte de um ente querido, podem ativar quadros depressivos. Dr. Carlos explica que, no luto, a tristeza é natural e necessária, mas quando ela ultrapassa os limites do aceitável e causa prejuízos à vida cotidiana, ela pode se transformar em uma depressão.
- Mudanças na Vida: Mudanças como a aposentadoria, a síndrome do ninho vazio (quando os filhos saem de casa), ou até mesmo a menopausa, podem ser gatilhos de depressão, especialmente em pessoas com predisposição genética.
- Alterações de Relacionamento: A perda de um relacionamento, como um divórcio ou separação, também pode ser um fator de risco para a depressão, com destaque para a adolescência, quando os jovens podem não ter a experiência emocional necessária para lidar com essas perdas.
O Impacto da Depressão em Diferentes Idades
Dr. Carlos observa que a depressão não tem faixa etária. Ela pode afetar desde crianças até idosos, mas, muitas vezes, em idades mais jovens, a doença pode ser mais difícil de ser identificada. No caso dos adolescentes, é comum que os pais atribuam sintomas de apatia e irritabilidade à fase da adolescência, o que pode retardar o diagnóstico.
- Crianças e Adolescentes: A depressão em jovens muitas vezes passa despercebida, pois seus sintomas podem ser confundidos com comportamentos típicos dessa faixa etária, como mudanças de humor. O psiquiatra alerta que, quando sinais como queda no desempenho escolar, isolamento ou irritabilidade excessiva aparecem, é essencial procurar ajuda médica especializada.
- Idosos: No caso dos idosos, a depressão é frequentemente negligenciada, pois é associada ao envelhecimento natural. A produção de serotonina diminui com a idade, o que pode contribuir para o desenvolvimento de quadros depressivos. Além disso, os idosos podem enfrentar dificuldades com a perda de autonomia e a adaptação ao envelhecimento, o que torna o apoio psicológico fundamental.
O Luto e a Depressão
O luto é uma resposta natural à perda, mas o Dr. Carlos enfatiza que, quando o sofrimento se prolonga a ponto de prejudicar a qualidade de vida, é necessário buscar tratamento. A tristeza durante o luto é esperada, mas quando ela se transforma em uma dor insuportável que impede o indivíduo de seguir com suas atividades diárias, a situação se caracteriza como uma depressão patológica. O luto patológico deve ser tratado com cuidado e acompanhamento psiquiátrico.
Tratamento da Depressão
O tratamento da depressão, conforme destacado pelo Dr. Carlos, combina duas abordagens essenciais: medicação e psicoterapia.
- Medicamentos: O tratamento medicamentoso é fundamental para restaurar o equilíbrio neuroquímico do cérebro. Os antidepressivos modernos, com menos efeitos colaterais que os utilizados no passado, são altamente eficazes. No entanto, Dr. Carlos alerta que o tratamento pode levar de três a quatro semanas para começar a mostrar resultados. Além disso, a descontinuação abrupta dos medicamentos pode resultar em recaídas e efeitos adversos.
- Psicoterapia: O acompanhamento psicológico, especialmente a terapia cognitivo-comportamental, é essencial para ajudar o paciente a lidar com os pensamentos negativos que alimentam a depressão. A combinação de medicamentos com psicoterapia tem mostrado os melhores resultados, pois permite que o paciente recupere sua saúde mental de forma integral.
- Atividade Física: A prática regular de exercícios físicos também desempenha um papel crucial na recuperação de pacientes com depressão. Exercícios extenuantes, como o boxe, têm demonstrado benefícios substanciais para melhorar o humor e combater os sintomas depressivos.
Conclusão
A depressão é uma doença complexa e multifacetada que afeta milhões de pessoas em todo o mundo. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado são fundamentais para a recuperação e a qualidade de vida dos pacientes. A entrevista com o Dr. Carlos Augusto Hueb traz à tona a importância de desmistificar a depressão e remover o estigma que ainda envolve o tratamento psiquiátrico. A depressão, como qualquer outra doença médica, deve ser tratada com seriedade, compreensão e, principalmente, sem preconceito.
Dr. Carlos Augusto Hueb


